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Não há conferências do clima sem os prémios “Fóssil do Dia”

Quarta-feira, 28.11.12

À semelhança de conferências anteriores, as organizações não-governamentais (ONG) presentes na COP18, em Doha, no Qatar, atribuem diariamente o galardão “Fóssil do Dia” (Fossil of the Day) aos países com pior comportamento negocial. A iniciativa da Rede de Ação Climática (CAN, na sigla inglesa para Climate Action Network) teve início na segunda-feira, com o galardão a ser entregue aos Estados Unidos, Canadá, Rússia, Japão e Nova Zelândia, pelo seu afastamento de um tratado multilateral vinculativo e do próprio Protocolo de Quioto.

Ontem foi a vez da Turquia, país que é o quarto maior investidor do mundo em carvão e teve a maior taxa relativa de crescimento das emissões anuais de gases com efeito estufa (GEE) entre 1990 e 2010. A justificar a distinção está ainda a postura do governo turco ao nomear 2012 como o “Ano do Carvão”, e a afirmação de que não cumprirá as metas no segundo período de compromisso do Protocolo de Quioto. O segundo lugar foi para a União Europeia (UE), que já atingiu a promessa de 20% de redução até 2020 e, segundo a CAN, não deve permanecer mais uma década sem novas metas mais ambiciosas.

Esta quarta-feira, o país agraciado com o primeiro lugar foi o Canadá, pela intenção de restrição do financiamento aos países do terceiro mundo e pelas posições contra novos compromissos com metas mais ambiciosas. O ministro do ambiente terá dito em conversas informais que os países em desenvolvimento não devem contar com mais recursos canadianos para financiar medidas de adaptação às alterações climáticas. As ONG acusam o Canadá de fazer o contrário do que deve: está a cortar no financiamento e a aumentar as emissões.

Em segundo lugar ficou a Nova Zelândia, por não definir a sua meta de redução para o segundo período de compromisso do Protocolo de Quioto, e por propor que o acesso ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) deve ser aberto a todos e não depender da assinatura de um segundo período de compromisso. Finalmente, em terceiro lugar, ficaram os Estados Unidos, por mais uma vez rejeitar medidas exigentes de redução das emissões de GEE e pela assinatura, ontem, pelo presidente Obama, de uma lei que permite às empresas aéreas do país não cumprir os regulamentos europeus para voos dentro e fora da UE. Mais em http://climatenetwork.org/fossil-of-the-day

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por Quercus às 19:34

Estourar a bolha de ar quente!

Quarta-feira, 28.11.12

Umas impressionantes 13 mil milhões licenças de emissão (AAU) de gases com efeito de estufa (GEE) vão sobrar do primeiro período de compromisso do Protocolo de Quioto. Estas licenças, chamadas também de “ar quente”, são uma ameaça à integridade do segundo período de compromisso do Protocolo de Quioto e de qualquer futuro acordo climático.

É preciso relembrar que estas emissões “sobraram” devido às emissões previstas terem ficado muito abaixo das verificadas. A Polónia, por exemplo, tem um compromisso de uma redução de 6% em relação às emissões de 1988, apesar do facto de em 1997, quando as metas de Quioto foram estabelecidos, as emissões da Polónia já serem 20% abaixo dos níveis de 1988.

As ONG alertam para não se cair na falsa afirmação de que o “ar quente” seja resultado de uma forte dedicação ao corte de emissões. Não o é e a queda económica não pode ser motivo para os países herdarem direitos de emissão. Se isto acontecer vai assistir-se a uma queda vertiginosa do preço atribuído às licenças de emissão.

O problema é tão grande que, mesmo se os países desenvolvidos aumentarem os compromissos de redução no segundo período de compromisso, não precisam de reduzir emissões, bastará comprar licenças de emissão excedentárias de outros. Para restituir parte da integridade ambiental neste segundo período é necessário estourar a bolha de ar quente. A proposta do G77 e China é a de cancelar a decisão de que as emissões excedentárias transitem entre períodos de compromisso.

Vale a pena este caminho? Certamente que sim. Neste momento estamos num caminho de poluição que poderá levar a um aquecimento de 4º C ou mais. Além disso, os impactos associados a um aumento mesmo de 2º C foram revistos em alta e agora são considerados "perigosos" e "extremamente perigosos". Um mundo para além 2º C vai ameaçar a própria existência da civilização como a conhecemos. Ouviu falar? Preocupado? Então vamos estourar a bolha de ar quente!

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por Quercus às 17:40